A audiência pública conjunta promovida ontem (31/1) pela
Comissão de Educação e Cultura e pela Comissão Especial do Plano
Nacional de Educação (PNE – PL 8035/10) promoveu uma discussão
qualificada acerca das metas 15, 16 e 17 do PNE que tratam da
formação e valorização dos profissionais de educação. “A
qualidade dos palestrantes, a intervenção dos deputados presentes
e a participação da plateia permitiram que analisássemos as três
metas com profundidade e apresentássemos alternativas”, avaliou a
professora e deputada federal Fátima Bezerra, presidenta da
Comissão de Educação e Cultura e autora do requerimento para a
realização da audiência conjunta.
A maioria dos palestrantes defendeu os 10% do PIB (Produto
Interno Bruto) para a educação como a única maneira de se
garantir a valorização dos profissionais de educação com piso
salarial, plano de carreira e formação continuada. “Com os
recursos atuais, não conseguiremos enfrentar o desafio da
educação de acompanhar o desenvolvimento do Brasil”, afirmou a
representante da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais
de Educação), Leocádia da Hora, “o PNE tem metas ousadas e vai
precisar de um investimento corajoso”, reforçou.
Na sua fala, Leocádia da Hora mostrou um levantamento feito pela
Undime em 1.641 municípios acerca da média salarial dos
professores. Mesmo tendo nível superior, esses profissionais têm
uma renda salarial que varia de R$ 731,84 a R$ 1.299,55. Além de
ser a favor dos 10% do PIB, a Undime defende ganhos reais do Piso
Salarial Nacional dos Profissionais do Magistério da Educação
Básica.
Para a presidente do Centro de Estudos Educação e Sociedade
(Cedes), Ivany Pino, o financiamento de 10% do PIB será um “um
pilar para a sustentação do Sistema Nacional de Educação”.
A deputada federal Fátima Bezerra voltou a defender os 10% do
PIB para aeducação. Para ela, é preciso disponibilizar mais
dinheiro para que as metas do PNE não virem “uma bela carta de
intenções, sem resultados práticos”. Ela também defendeu a
equiparação entre os vencimentos dos profissionais de magistério,
com os demais de nível superior. “Não vamos aceitar a meta do PNE
dizendo que vai aproximar o piso salarial do magistério. Queremos
a equiparação aos demais profissionais de nível superior”,
sustentou.
Ela argumentou que qualquer melhoria nos índices educacionais de
um país passa pela valorização dos profissionais do ensino. “Um
salário justo é um dos direitos desses trabalhadores, que deve
ser associado à carreira, jornada e formação. Também é preciso
prover a estrutura para que o professor possa trabalhar com
qualidade, com o fornecimento de livros de qualidade, inclusão
digital, cursos de qualificação e intercâmbio com profissionais
de outras instituições de ensino”, exemplificou.
O representante da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Educação), professor Heleno de Araújo Filho, denunciou que
apesar de a Lei 11.738/08 estabelecer o Piso Salarial dos
Profissionais do Magistério no valor de R$ 1.187,97 mensais,
ainda há muito municípios e estados que não pagam o piso. Heleno
também argumentou que o desenvolvimento do ensino deve ser feito
por meio da valorização de todos os profissionais da educação.
Ele também defendeu os 10% do PIB para a educação como forma de
se garantir uma melhor remuneração para os professores e,
consequentemente, um ensino público de qualidade.
A presidente da Anped (Associação Nacional de Pesquisa e
Pós-Graduação em Educação), Dalila Andrade Oliveira, mostrou uma
pesquisa feita com 8.805 professores em sete estados brasileiros.
Desse total, 67,81% têm nível superior, mas 46,2% não têm um
plano de cargos e salários e 4,1% não sabem se têm. “Quando eles
não sabem, é porque geralmente não há essa política”, explicou
Dalila.
A pesquisadora também disponibilizou um comparativo com outros 20
países acerca da média salarial dos professores de educação
básica. Infelizmente, o Brasil está em antepenúltimo lugar,
ganhando, apenas da Eslováquia e da Romênia, perdendo de países
como Peru e México. “Temos de mudar essa realidade. O magistério
é uma profissão em clara desvalorização. Se continuarmos assim,
não vamos atrair bons profissionais para a área , caso contrário,
teremos cada vez menos jovens dispostos a se tornar professores”,
completou a dirigente da Undime, Leocádia da Hora.
Negociação - A audiência também tratou do papel dos técnicos
administrativos para a qualidade do ensino. A coordenadora-geral
da Federação de Sindicatos de Trabalhadores das Universidades
Brasileiras (Fasubra), Léia de Souza Oliveira, pediu que o PNE
contemple mais esses trabalhadores da educação. De acordo com
ela, atualmente existem 182 mil trabalhadores sem piso salarial
digno. Léia lembrou que 150 mil servidores de diversas
universidades federais estão em greve há mais de 80 dias.
Durante a audiência, a deputada Fátima Bezerra fez um apelo para
que o governo apresente uma contraproposta aos servidores
técnicos/administrativos das universidades federais e dos IFETS
(Institutos Federais de Ensino Técnico). “Já foi feita uma
negociação com os professores, esperamos agora que os demais
servidores sejam atendidos”, afirmou. A Comissão de Educação e
Cultura, presidida por Fátima Bezerra , tem participado das
negociações com o governo federal e vai continuar a procurar uma
solução para o impasse. Durante a audiência de ontem também foi
aprovada uma moção de apoio aos servidores em greve.
Também falaram na audiência pública, representantes do Andes
(Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino
Superior), do Proifes (Fórum de Professores das Instituições
Federais de Ensino Superior) e da Anfope (Associação Nacional
pela Formação de Profissionais da Educação).