V. CONSIDERAÇÕES FINAIS:

DO "PROVISÓRIO DEFINITIVO"AO "DEFINITIVAMENTE PROVISÓRIO"

Esta pesquisa procurou compreender as especificidades da racionalização de diferentes processos de trabalho que constituem o trabalho bancário, com o objetivo de analisar as qualificações que estão sendo requeridas (escolaridade, qualificação técnica e social, competências), em diferentes formas de relações empregatícias, no processo de reestruturação produtiva em curso no setor. Esta análise também procurou resgatar as relações de gênero nos processos produtivos apontados, por compreendê-las relevantes e necessárias para apreender mais amplamente o objeto deste estudo.

Neste sentido, considerando que os diferentes processos de trabalho enfocados são portadores de especificidades próprias, foram analisados os locais de trabalho que, em uma pesquisa prévia, informavaram ser relevantes para a realização da atividade bancária. Assim, procurou-se compreender diferentes formas de atendimento ao cliente - agências bancárias, centrais de atendimento e os chamados bancos virtuais -; o suporte tecnológico nos bancos - departamento de processamento de dados -; o suporte ao registro dos documentos e valores - o centro de compensação de cheques -; o suporte à qualificação do trabalhador bancário - departamento de treinamento e formação profissional.

Os processos de trabalho acima referidos foram analisados considerando a heterogeneidade das formas de inserção no trabalho -trabalho em tempo integral, trabalho em tempo parcial, trabalho terceirizado - , bem como as relações de gênero observadas, conforme já salientado. Para tanto, foi realizada uma análise comparativa entre um banco estatal, um banco privado nacional e um banco privado estrangeiro pois, em função de suas trajetórias históricas acrescentam singularidades a análise, possibilitando uma compreensão mais ampla do que venha a ser o trabalho bancário no Brasil.

Desta forma foi possível apreender (pelo menos, em grande parte) as características que marcam o processo de reestruturação produtiva no setor bancário, em São Paulo, maior centro financeiro do Brasil e da América Latina

O referido processo de reestruturação dos bancos é compreendido como uma das características constitutivas do processo de reestruturação do próprio capitalismo, mais amplo e complexo do que ocorre no âmbito dos espaços produtivos; trata-se do processo de mundialização de capital que tem sido acompanhado pela expansão do ideário neo-liberal.

Especificidades do processo de reestruturação do sistema bancário no Brasil: concentração e privatização

O processo de reestruturação do capitalismo se expressa no sistema financeiro brasileiro adequando-o a um novo patamar de acumulação, caracterizado pela importância da esfera financeira no comando da repartição e destinação social da riqueza. A reorganização do sistema financeiro global e o emergente poder da coordenação financeira caracteriza-se pela proliferação e descentralização das atividades financeiras, criação de novos instrumentos e mercados.

As mudanças no mercado financeiro intensificam a velocidade de circulação dos capitais, subjugam o capital produtivo a redução das taxas de crescimento, submetem os Estados-Nação à livre circulação de recursos e aumentam a instabilidade macro-econômica no mercado nacional e internacional. Desta forma, a desregulamentação do sistema e as inovações (novos produtos e serviços) no setor vieram a ser consideradas condição de sobrevivência de qualquer centro financeiro mundial através de um sistema global integrado por um sistema telemático instantâneo.

Esta dinâmica insere-se em um contexto de intensificação da mundialização dos mercados e dos fluxos financeiros, cuja velocidade possibilita a concretização da internacionalização dos bancos, ampliando a interpenetração dos diversos mercados nacionais.

Neste sentido, o sistema financeiro assume um duplo papel: ao mesmo tempo em que atua enquanto agente no processo de reestruturação mais amplo, também vivencia reestruturações nos processos produtivos no sentido de se adequar a lógica de "livre-mercado" que norteia a intensa competição já outrora existente, porém intensificada, neste setor.

No Brasil, como em outros países, em um aparente paradoxo, o Estado atua fortemente, através das políticas econômicas e financeiras, no sentido de adequar a economia e o sistema bancário do país às características mencionadas.

A estabilização da moeda em 1994, através do Plano Real, foi um marco neste sentido, após tentativas frustradas de vários planos econômicos com este mesmo objetivo, iniciadas em 1986 com o Plano Cruzado.

O processo de reestruturação do Sistema Financeiro no Brasil, sob a coordenação do Banco Central e de acordo com esta instituição regulatória e fiscalizadora, resulta em três modalidades de "ajustes" do sistema bancário.

Em primeiro lugar, destacam-se as medidas relativas ao número de empresas, ou seja, falências, fusões e incorporações, privatizações. Os ajustes relativos à redução do número de empresas são considerados, pelo Banco Central, de dois tipos: não voluntários e voluntários.

Os "ajustes não voluntários" referem-se a 40 bancos que sofreram intervenção por parte do Banco Central, a partir da estabilização da moeda decretada no Plano Real, em 1994. As principais intervenções ocorreram nos bancos Econômico, Bamerindus e Nacional. Estes ajustes envolveram estes grandes bancos, como bancos médios e pequenos, considerados "vulneráveis" e cuja situação "explodiu" após o Plano Real, posto que tanto a lucratividade que auferiam como os dados que ocultavam em balanços financeiros, tornaram-os inviáveis economica e financeiramente.

O problema da "crise de confiança" no sistema financeiro, no caso dos grandes bancos, e a justificativa da "estabilidade sistêmica" foram apontados como elementos que justificaram a ação do Banco Central, implementando o PROER - Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, em 03.11.95. Tal programa foi apresentado como propiciador de estabilidade financeira, sobretudo no que tange os grandes bancos privados nacionais, livrando o sistema como um todo de "risco sistêmico", cabendo ao Banco Central do Brasil absorver a "parte ruim"dos bancos (dívidas), sobretudo dos grandes bancos acima citados. Os processos de intervenção nos bancos estatais, também efetivado pelo Banco Central do Brasil, os prepara, neste mesmo sentido, para a privatização "da parte boa", dos bancos.

Os "ajustes voluntários" ocorreram no segmento sobretudo de bancos médios, envolvendo aquisições, fusões e incorporações a partir de iniciativas dos próprios bancos, procurando melhores condições de competitividade no mercado, possibilitando intenso processo de concentração bancária , no país. Ganhos de escala, ampliação de redes de agências e de carteira de clientes, aproveitamento de tecnologias e espaços compartilhados, são fatores relevantes neste processo.

Desta forma, a rede bancária no Brasil, em 1993, era constituída por 245 bancos, 17.194 agências e 13.326 postos de atendimento; em maio de 1997, 225 bancos significavam 16.418 agências e 14.859 postos de atendimento. O processo de concentração bancária, através de corporações, fusões e privatizações possibilitou a expansão da participação do capital estrangeiro no sistema bancário, sobretudo no setor de varejo bancário, através da intermediação financeira e política do Banco Central do Brasil.

Todas estas medidas provocaram uma forte redução no mercado de trabalho bancário, tanto pela eliminação de postos de trabalho superpostos, superposição de agências, reestruturação das formas de gestão, fusão de postos de trabalho, bem como pelo uso intensivo das tecnologias da informação. Desta forma, se em 1986 a categoria representava um milhão de trabalhadores, em 1996 foi reduzida para 497.000 bancários ou seja, em 10 anos, 503.000 postos de trabalho foram suprimidos.

Em segundo lugar, o Banco Central aponta para os "ajustes" relativos à composição dos produtos bancários, que referem-se as estratégias do setor objetivando a manutenção e ampliação das carteiras de clientes e de lucratividade, em um contexto de intensa concorrência entre os bancos. Assim, é observado uma oferta crescente de produtos e serviços, sendo que a receita de serviços tende a crescer em detrimento da receita de créditos ao consumidor. Não obstante, esta ainda prevalece sobre a primeira, de acordo com a instituição citada.

Finalmente, em terceiro lugar, são salientados os "ajustes" referentes ao "aparato regulatório" do sistema bancário envolvendo mudanças no sistema de garantia de créditos. Isto quer dizer que, para a abertura de um banco, a partir de 1996, passou a ser exigido 32% dos ativos, sendo que para os já existentes 8% era considerado suficiente. Além desta alteração houve aumento do poder de intervenção do Banco Central na administração dos bancos..

No contexto acima descrito, caracterizado por permanente lucratividade, mesmo que as altas taxas registradas no período inflacionário fossem reduzidas no período de estabilização da moeda, é observado uma drástica redução no emprego bancário, atribuído a diversos fatores que caracterizam a reestruturação produtiva neste setor, refletidas no mercado de trabalho.

Além dos programas de "ajuste" acima apontados como fusões e incorporações, privatização dos bancos estatais, é possível apontar um conjunto de medidas que objetivam a minimização dos custos, e que afetam diretamente o emprego bancário. A partir do momento que a inflação deixou de ser uma fonte segura de lucratividade nos bancos, estas tendências, observadas desde a década de 70, se intensificaram:

1 - a evolução bem como o uso intensivo das tecnologias da informação, informática e telemática, permitindo automatizar serviços para reduzir custos e aumentar a segurança e a qualidade dos serviços disponibilizados para uma parcela da população via fax, telefones, computadores em escritórios e residências.

2 - a terceirização de um volume crescente de trabalhos considerados "não bancários" como transporte, segurança, limpeza, engenharia e manutenção de prédios e equipamentos, restaurante, desenvolvimento de softwares. Posteriormente, serviços bancários também passaram a ser terceirizados como análise de crédito, compensação de cheques e as centrais de atendimento.

3 - diferentes formas de gestão que objetivam a fusão de postos de trabalho, a redução dos níveis hierárquicos como Programas de Qualidade que priorizam redução de custos, intensificação do trabalho e maximização de resultados.

Este processo, tanto no plano macroeconômico e social, referente a adequação do sistema financeiro nacional a um mercado mundializado, expressão da reestruturação do próprio capitalismo, como no plano micro, da organização do trabalho, implica em mudanças observadas no emprego e na qualificação dos bancários, como pode ser observado nesta pesquisa.

O trabalho bancário no contexto da reestruturação: desemprego, precarização e intensificação do trabalho

As mudanças referentes a organização do trabalho no interior dos bancos são compreendidas como sendo expressão deste processo mais amplo descrito, de opções econômicas, políticas e sociais e não simplesmente decorrentes de aspectos tecnológicos.

Neste sentido, os bancos observados, aparentemente, implementam práticas de gestão diferenciadas, relações salariais também diferenciadas, em função tanto de suas próprias histórias como dos segmentos de mercados em que atuam. Também vivenciam graus diferenciados de difusão tecnológica. No entanto, a diferenciação observada entre eles ocorre muito mais em termos quantitativos do que efetivamente qualitativos, quer dizer, implementam estratégias que apontam para a mesma direção: racionalização do trabalho via minimização de custos e ampliação de serviços competitivos em um mercado também cada vez mais competitivo. Assim, nestas considerações finais, pretende-se apontar para o que foi possível apreender a partir do conjunto de instituições e processos de trabalho posto que as especificidades observadas em cada um deles já foi objeto de estudo comparativo nos diferentes capítulos deste relatório.

Neste sentido, três fenômenos sociais caracterizam o processo de reestruturação nos bancos e estão complementamente imbricados com a questão central desta pesquisa, ou seja, "a nova qualificação do bancário". São elas:

1 - Intenso desemprego - no período 1986/1996, a categoria bancária no Brasil, representava um milhão de trabalhadores; em 1996, 497.000, conforme já dito anteriormente. A elevada taxa de desemprego no setor, refere-se a diferentes políticas que objetivam a redução de custos, em um contexto altamente competitivo. Assim, é possível destacar a eliminação e fusão de postos de trabalho, em decorrência das práticas de gestão que possibilitam a flexibilização funcional do trabalho, a redução de níveis hierárquicos e a opção política e econômica que embasa o uso das inovações tecnológicas, determinando, ao mesmo tempo, crescimento da produtividade e a redução de postos de trabalho, sem contudo alterar a jornada de trabalho. dos que permanecem empregados Pelo contrário, é registrado um número maior de horas extras, de acordo com as entrevistas realizadas.

Os postos de trabalho passíveis de um grau elevado de normatização, como, por exemplo, caixa de banco, separação de documentos e cheques, digitação, foram os mais atingidos pela racionalização através do desenvolvimento de softwares que possibilitaram a transferência desta tarefa para o cliente, no momento da realização da operação bancária (auto-atendimento), ou para o funcionário que a executa. Desta forma, é observado uma redução mais intensa do trabalho em tempo parcial, executado por bancários denominados escriturários. Essas tarefas, na sua grande maioria, não implicam em alto grau de qualificação e, em decorrência dos seus conteúdos, são submetidas a tempos impostos. No entanto, exigem um alto grau de atenção e responsabilidade.

As mulheres, majoritariamente, são escriturárias, o que possibilita levantar a hipótese que elas estejam vivenciando o desemprego mais intensamente do que os homens. Não há dados quantitativos confiáveis que confirmem esta colocação referente aos bancos privados enfocados.

O banco estatal vivencia também um processo de redução de postos de trabalho, em decorrência de mudanças nas formas de gestão e difusão tecnológica mas, sobretudo, por estar sob intervenção do Banco Central do Brasil, em um processo de privatização. Neste sentido, no banco estatal, os homens, há mais tempo no banco, aderiram aos planos de Demissão Voluntária e Incentivo à Aposentadoria em número absoluto maior do que as mulheres. As mulheres representam, em abril de 1997, 49% dos bancários neste banco; em 1993 significavam 48%.

No entanto, o crescimento relativo da participação feminina neste banco, não altera ou melhor, altera pouco, a estrutura de poder nas relações de gênero observada em trabalho anterior, mesmo considerando que os homens comissionados são mais atingidos pelos programas de redução de quadros impostas pelo Banco Central. As mulheres continuam predominantemente no trabalho em tempo parcial, conforme análise realizada anteriormente neste relatório.

Nos bancos privados o desemprego é realizado através da demissão direta e no banco estatal através de Planos de Incentivo à Demissão Voluntária, Demissão Consentida e Planos de Incentivo à Aposentadoria.

O desemprego de trabalhadores em decorrência do processo de reestruturação acrescenta uma nova dimensão à exclusão social no Brasil, até então sinônimo de miséria, pobreza, de não acesso à educação e saúde. Trata-se do desemprego de longa duração de trabalhadores escolarizados e qualificados, como, os bancários no Brasil. Esta problemática social, ainda não estudada no Brasil, coloca indagações para pesquisas no âmbito da sociologia do trabalho e da sociologia da educação.

2 - Terceirização e precarização do trabalho . Nos processos terceirizados enfocados - compensação de cheques e telemarketing - , foi possível registrar, comparando-os com os mesmos processos realizados nos bancos, redução de custos e índices de produtividade mais elevados obtidos através do uso das mesmas tecnologias implementadas tanto pelas empresas terceirizadoras como pelos bancos. Intensificação do trabalho, jornadas de trabalho mais longas, frequentes horas-extras e salários relativamente inferiores informam as práticas de gestão que determinam a precarização do trabalho em relação a mesma tarefa efetuada nos bancos. Por outro lado, o desemprego elevado no setor possibilita que bancários anteriormente qualificados pelos bancos, sejam contratados pelas terceirizadoras de serviços em condições mais precárias. Na empresa terceirizadora de Compensação de Cheques, dos 4.000 funcionários, 95% haviam trabalhado em banco anteriormente. O salário de um Compensador nesta empresa representa 33% do salário no banco estatal na mesma função e 70% no banco privado estrangeiro.

Desta forma, a flexibilidade numérica, ou seja, a possibilidade de admitir e demitir de acordo com as demandas do mercado e dos processos de trabalho, se reafirma como importante estratégia de minimização de custos nos bancos enfocados.

Uma análise de gênero à respeito dos processos de terceirização observados revela que as empresas terceirizadoras reafirmam os estereótipos referentes aos atributos do masculino e do feminino na construção das qualificações desejadas na execução das tarefas.

No serviço de compensação de cheques, espaço predominantemente masculino de trabalho, tanto na empresa terceirizadora como nos bancos, o reduzido número de mulheres é justificado em função do horário noturno, que o torna "perigoso para as mulheres para saírem do trabalho"; ou ainda, simplesmente, que "este não é um ambiente adequado para mulheres porque o trabalho aqui é tenso, muita correria, e os rapazes ficam à vontade". No entanto, é sempre reafirmado que "nunca mulher foi descriminada aqui".

Afirmações como estas, que atribuem fragilidade à "natureza"feminina, não lhes possibilitando acesso a este tipo de tarefa, são recriadas na tarefa de operadora nas centrais de atendimento, marcando, ao contrário do serviço de compensação de cheques, o teleatendimento como sendo predominantemente feminino. As mulheres são consideradas mais apropriadas para a tarefa em decorrência de atributos pessoais, construídos a partir de estereótipos sexistas, como: "voz mais suave", "convincente", "são mais disponíveis para ouvir", "mais pacienciosas". Além disso, em decorrência do número de crimes praticados por mulheres ser, estatísticamente, inferior ao dos homens, a voz feminina é compreendida "mais confiável"para realizar operações à distância.

Desta forma, no contexto da reestruturação dos bancos, a qualificação feminina permanece extremamente vinculada aos atributos pessoais, desejados, mas não reconhecidos em termos salariais, pelos bancos. O trabalho em telemarketing tem sido realizado sobretudo por jovens mulheres brancas, com terceiro grau incompleto, estudantes, com boa dicção e bom português. Os salários são equivalentes ao salários de escriturários, portanto, encontram-se nos níveis inferiores da categoria bancária.

3 - Intensificação do trabalho. Quanto aos bancários que permanecem empregados, nos diferentes processos de trabalho enfocados, foi possível observar a intensificação do trabalho presente tanto pela fusão de postos de trabalho, diminuição dos níveis hieráquicos, como pelas exigências decorrentes de programas de gestão como, por exemplo, Programas de Qualidade, que objetivam a maximização dos resultados.

Neste sentido, o medo da perda do emprego, sempre presente em todas as entrevistas e debates em grupo, se constitue em grande motivador para o trabalho, em tempos de dircursos participacionistas. As entrevistas realizadas nos diversos locais de trabalho - nas agências, tanto no trabalho de suporte ao atendimento ao cliente, como no trabalho diretamente vinculado ao cliente; no processamento de dados, na compensação de cheques, no teleatendimento - registra que o bancário compreende estar trabalhando mais intensamente, comumente realizando horas extras, percebendo salários relativamente menores em comparação com os anos anteriores. No entanto, revela compreender também que desta forma mantem o emprego, transformando o medo em produtividade. Através da "pedagogia do mêdo"do desemprego qualifica-se, de acordo com o conceito atribuído à este vocábulo pelos bancos.

O desemprego, nas entrevistas, aparece como expressão da atual conjuntura marcada por forte competição inter-bancária, estabilização da moeda e difusão da informática. Porém, a representação do desemprego já vivido pelo colega reafirma o medo do próprio desemprego, atribuindo-lhe culpabilidade por não ter sabido "captar o momento", "produzir de acordo com o que o banco pedia" ou tantas outras formas de exprimir a "improdutividade" do outro, daquele que se desemprega.

Os salários são também constituídos de forma a reafirmar este processo de valorização do individualismo somado ao medo do desemprego na construção de índices de produtividade elevados. Isto quer dizer que os salários são cada vez mais "flexíveis", constituídos de parcela restrita fixa e vários ítens variáveis, que possibilitam a auferição diária, mensal, do "valor"do funcionário em relação aos parâmetros pré-estabelecidos, com sua própria anuência.

Considerando as características gerais acima apontadas, observadas no trabalho bancário no contexto da reestruturação, compreende-se a "nova qualificação"do bancário.

O fetiche da qualificação mais elevada dos bancários

Quanto a questão central desta pesquisa - a nova qualificação do bancário no contexto da reestruturação dos bancos - observa-se paradoxos, contradições, fortemente relacionadas ao contexto de desemprego intenso, precarização e intensificação no trabalho, bem como o crescimento da competição e produtividade observada no setor.

Considerar estes aspectos, inicialmente, em uma análise que privilegia os contornos das "novas qualificações", permite apreender melhor o seu significado, ou seja, o que vem se constituir qualificação para o trabalho neste contexto.

A categoria bancária distingue-se, há muito tempo, de outras categorias profissionais, no Brasil, por ser altamente escolarizada. Os bancos selecionam seus funcionários no mínimo com primeiro grau completo (8 anos de estudo), com forte predominância do segundo grau (11 anos de estudo) e terceiro grau (16 anos de estudo) desde a década de 60, a partir da Reforma Bancária. O que observa-se, em termos comparativos com a atual conjuntura, é que, efetivamente, cresce o número de bancários com terceiro grau e decresce a porcentagem de bancários com primeiro e segundo grau. Esta constatação tem possibilitado tanto aos bancos como aos sindicatos dos bancários afirmar que , no contexto da reestruturação dos bancos, é requerida um novo e mais elevado patamar de qualificação dos bancários.

Nesta pesquisa, a análise dos postos de trabalho não confirma a colocação acima como decorrência do conteúdo destes mesmos postos e processos de trabalho. O que se observa é que os procedimentos para executá-los tendem a ser cada vez mais simplicados e seguros, com a difusão das tecnologias da informação e, submetidos a controles mais rígidos, tanto para os postos de trabalho passíveis de alto grau de normatização (escriturário caixa, compensador) como para aqueles que vivenciam forte tensão entre a norma e a particularidade, ou seja, aqueles que estabelecem relação direta com o cliente . Por exemplo: na função gerente, a particularidade que cada caso, cada cliente representa é minimizada pela construção de softwares que, através do preenchimento de ficha cadastral informa o "valor" (em termos de riscos e rentabilidade) deste cliente. Assim, no limite de sua alçada, o gerente pode autorizar ou não a transação financeira. Para as operações de valores mais elevados, comitês de crédito (grupo de gerentes ou diretores) aprovam a operação. Outros tantos exemplos foram registrados ao longo deste relatório. Neste sentido, torna-se necessário saber utilizar estes programas, de comandos simples, que não demandam longo processo de formação, ao contrário, muito comumente é o próprio colega que, no dia a dia, informa como proceder.

Nesta pesquisa é compreendido que os índices de escolaridade mais elevados registrados nos bancos, referem-se não a uma exigência do conteúdo do posto de trabalho, mas a um longo processo de desemprego que possibilita privilegiar, para permanecer empregado, os bancários mais escolarizados, entre os outros que vão sendo excluídos deste segmento do mercado de trabalho.

Qual seria então, o significado de qualificação na ótica dos bancos?

Em termos gerais, em um contexto de intensa concorrência inter-bancária e redução de custos, conforme já apontado em diferentes momentos neste texto, qualificação, na perspectiva dos bancos, expressa a capacidade de competir, com sucesso, tanto com colegas de trabalho na execução de serviços internos, na busca de um desempenho diferencial cada vez melhor, como no mercado financeiro, vendendo produtos e serviços bancários. Isto quer dizer que, na ótica dos bancos, ser capaz e ter disposição para competir, ser capaz de ser "um vencedor", marca e caracteriza competências, compreendidas como sendo qualificação.

Desta forma, um conjunto de processos sociais, econômicos, culturais são mobilizados na construção da socialização "para mercado"; além, sem dúvida, da grande importância adquirida pelos atributos pessoais. Observa-se também que a importância do diploma, em termos de conteúdo (qualidade) é relativizada, adquirindo muito mais um caráter legitimador do posto de trabalho ocupado do que mobilizador de conhecimentos. Vários exemplos foram destacados neste relatório; destacam-se, para citar alguns, a gerencia, caixa de banco, tele-atendimento, compensador e até mesmo analista de sistemas, ou seja, para os postos de trabalho que implementam políticas já previamente definidas pela alta direção dos bancos. Para as funções que projetam políticas e procedimentos a serem cumpridos por toda a instituição (alta direção), registra-se a exigência de diplomas obtidos nas melhores escolas do país, frequentemente com pós-graduação no exterior; mas esta exigência não se constitue em característica do processo de reestruturação produtiva.

A análise a partir da divisão social de sexo reafirma a relativização do diploma, em termos de conhecimentos exigidos nos bancos, reafirmando qualificação como expressão de relações sociais. As mulheres, conforme registrado neste relatório, são mais escolarizadas do que os bancários mas ocupam cargos hierarquicamente inferiores. No entanto, mesmo nos cargos mais elevados - gerente pessoa física - as competências e atributos femininos, são descritas sobretudo a partir da construção dos estereótipos que marcam a desigual divisão sexual do trabalho: as mulheres "têm mais paciência e jeitinho para cuidar de muitas contas de pequeno valor do que os homens" ; "se dedicam mais", "mais atenciosas".

Considerando a relação entre a distribuição das chefias e escolaridade, no período das aposentadorias e adesões aos planos de demissão, é observado que houve uma redução em todos os níveis hierárquicos do grau de escolaridade no banco. Assim, cresce o número de funcionários com superior incompleto e decresce o número dos que já o concluíram, possibilitando dois tipos de questionamento a respeito da propagada importância de níveis de escolaridade mais elevados em um contexto de reestruturação produtiva. Por um lado, pode-se novamente indagar a propósito da relativização do diploma para ocupar a grande maioria dos postos de trabalho nos bancos; por outro lado, questionar a possível desestruturação de instituições estatais em processo de privatização, a partir de características que as distinguiram até então: elevado grau de escolaridade e qualificação dos seus funcionários que eram acompanhados por índices salariais mais elevados e direitos sociais conquistados. Neste contexto, ao contrário dos bancos privados, cresce a participação das mulheres no banco estatal.

O trabalho bancário durante décadas representou, para muitos jovens, uma estratégia de continuidade nos estudos de terceiro grau, por significar uma jornada de trabalho de 6 horas diárias para, posteriormente, deixarem o banco e seguir sua própria profissão. O trabalho bancário era compreendido, pelos jovens bancários ingressantes, como "provisório". Posteriormente, por representar melhores condições de trabalho e carreira em comparação com outros setores profissionais, ia, pouco a pouco, adquirindo um caráter "definitivo", como bem analisou Romanelli. Desta análise decorre que, sociológicamente, a carreira bancária possibilitava o desenvolvimento de um processo de escolarização e carreira.

Hoje, os bancários são mais velhos, mais escolarizados, como revelam os dados estatísticos. Porém, a intensa pressão por produtividade, competição entre os os próprios colegas marca a precariedade do vínculo com a instituição, a possibilidade real de desemprego a qualquer momento. Desta forma, no contexto da reestruturação produtiva o emprego nos bancos deixa de ser caracterizado como sendo provisório que se transforma em definitivo para se constituir em definitivamente provisório.