Parte III - TRABALHO, QUALIFICAÇÃO E COMPETÊNCIA PROFISSIONAL - DAS DIMENSÕES CONCEITUAIS E POLÍTICAS

Reconstruindo Conceitos e Significados

As transformações em curso na sociedade brasileira , decorrentes das mudanças técnico-organizacionais no mundo do trabalho estão reavivando e fazendo ressurgir com muita ênfase, acalorados debates relativos a temas e problemas que nos remetem às relações entre - trabalho/qualificação/educação (especialmente sobre a formação profissional). Estudos e debates (nacionais e internacionais) envolvendo tais questões têm envolvido pesquisadores de vários campos das ciências. As discussões têm navegado pelos mais diferentes campos das ciências sociais - economia , sociologia , história, antropologia - passando também a constituir objeto de preocupação de educadores, lingüistas , psicólogos, engenheiros de produção, médicos - psiquiatras etc. Enfim , todos aqueles que se preocupam com as questões relativas ao trabalho humano e suas metamorfoses. Tais temas não só estão na ordem do dia dos estudiosos, como também fazem parte da agenda dos principais protagonistas sociais envolvidos nos processos de mudança e transformação em curso - empresários, trabalhadores, governos etc..

Expressões tais como "qualificação", "competência", "formação profissional", ocupam lugar de destaque nos discursos e documentos dos diferentes agentes e instituições sociais. O uso desses conceitos polissêmicos , na grande maioria das vezes empregados como equivalentes e sinônimos, despertou nossa atenção, pois tanto na literatura como nos discursos aparecem como conceitos novos , atuais e não como reatualizações. Tais expressões largamente utilizadas em outros momentos históricos ,

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*Texto elaborado como parte da pesquisa do CEDES - Ciência e Tecnologia, Qualificação e Produção - PCDT/CNPq, sub-projeto - Propostas e Experiências de Formação Profissional das Organizações de Trabalhadores por Silvia Maria Manfredi

oriundas de visões teóricas com matrizes epistemológicas diversas aparecem, por vezes, como sendo unívocas, politicamente neutras e consensuais. Daí a nossa preocupação em abordá-los a partir de numa perspectiva histórico - crítica, o que não constitui um mero exercício intelectual como poderiam interpretar alguns, mas uma tentativa de demarcar as diferenças existentes nas diversas abordagens, quer seja no âmbito teórico , como político pois, no nosso entender, tais conceitos expressam sentidos e intenções diferentes. Numa linguagem política significa dizer , como afirma Dagnino (1994) , que os diferentes sentidos (mesmo comportando reatualizações e ressignificações) "expressam e respondem a um conjunto de interesses, desejos e aspirações " diferenciados dentro da sociedade e que as diversas formas de apropriação remetem a projetos e estratégias políticas que estariam sendo adotadas pelos diferentes sujeitos/protagonistas sociais. Há portanto uma disputa histórica também no campo da fixação de sentidos que nos remete à necessidade de compreende - los, para que possamos visualizar limites , possibilidades, demarcar diferenças e peculiaridades entre diferentes projetos sociais e de educação, disputados pelas diversas forças sociais.

É com esta preocupação que procuraremos resgatar e discutir criticamente a construção social dos significados que têm sido atribuídos às noções de qualificação e competência , recorrendo àqueles elaborados no campo da : economia da educação, economia política, sociologia do trabalho, psicologia e avaliação educacional.

Um levantamento cuidadoso, embora não exaustivo, da produção teórica no campo das ciências sociais e humanas, nos colocou diante de uma diversidade muito grande de concepções e visões ancoradas nos mais diferentes enfoques e paradigmas teóricos. Tal fato nos remeteu à necessidade de restringir a pesquisa a algumas áreas tomando-as como parâmetros, dada a impossibilidade de tratar a questão em suas múltiplas dimensões , abrangendo a vasta gama de pesquisas e abordagens teóricas que tratam do assunto. Em vista disso, tomamos para efeitos de análise e discussão alguns dos trabalhos mais significativos das áreas acima mencionadas, sem ter a pretensão de cobrir o vasto campo bibliográfico existente em cada uma delas.

As expressões qualificação e competência , segundo nossa pesquisa, parecem ter matrizes distintas. A noção de qualificação está associada ao repertório teórico das ciências sociais, ao passo que o de competência está historicamente ancorado nos conceitos de capacidades e habilidades , constructos herdados das ciências humanas - da psicologia , educação e linguística.(1) Tomemos inicialmente as diferentes noções de qualificação construídas no campo da economia da educação e da sociologia do trabalho.

A) AS NOÇÕES DE QUALIFICAÇÃO A PARTIR DOS REFERENCIAIS DA ECONOMIA DA EDUCAÇÃO

a1.) Qualificação como sinônimo de preparação de "capital humano"

Esta concepção de qualificação nasceu associada à concepção de desenvolvimento sócioeconômico , dos anos 50/60 , da necessidade de planejar e racionalizar os investimentos do Estado no que diz respeito à educação escolar, visando , no nível macro, garantir uma maior adequação entre as demandas dos sistemas ocupacionais e o sistema educacional . Foi elaborada a partir dos cânones da "Teoria

do Capital Humano" cujos principais expoentes foram os economistas americanos , dentre eles Theodore Schutz (1967) e Frederic H. Harbison (1961) que defendiam a importância da instrução e do progresso do conhecimento como ingredientes fundamentais para a formação do chamado capital humano , de recursos humanos , isto é, da escassez de pessoas possuidoras de habilidades - chave para atuarem nos setores em processo de modernização. Naquele contexto histórico , por modernização entendia-se a eleição e adoção do modelo industrial capitalista como modo de produção, consumo , estilo de vida, e a integração em um padrão de desenvolvimento industrial adotado nos países capitalistas do ocidente.

A expressão "formação de capital humano", empregada por Harbison, significa o "processo de formação e incremento de número de pessoas que possuem as habilidades, a educação e a experiência indispensáveis para o desenvolvimento político e econômico de um país. A criação de capital humano se assimila, desse modo, a uma inversão em benefício do homem e de seu desenvolvimento como um recurso criador e produtivo. Inclui a inversão por parte da sociedade na educação, a inversão por parte dos empregadores no adestramento , e a inversão de tempo e dinheiro por parte dos indivíduos para o seu próprio desenvolvimento. Tais inversões possuem elementos qualitativos e quantitativos, isto é, a formação de capital humano implica não apenas gastos de educação e adestramento em sentido estrito, mas também o cultivo de atitudes favoráveis à atividade produtiva." (2)

No plano macro - societário, esta concepção de qualificação gerou uma série de políticas educacionais voltadas para a criação de sistemas de formação profissional estreitamente vinculadas às demandas e necessidades dos setores mais organizados do capital e de suas necessidades técnico-organizativas. A história dos sistemas de formação profissional no Brasil enquadram-se dentro desta lógica da qualificação entendida como preparação de mão - obra especializada (ou semi - especializada), para fazer frente às demandas técnico- organizativas do mercado de trabalho formal.

Associada à conotação macroeconômica ( não exclusivamente na ótica do "capital humano", embora contaminada por ela) construiu-se uma outra conotação do termo qualificação, restringindo-a ao binômio emprego/educação escolar.

a2) A noção de qualificação formal

Ainda no plano macro, isto é, das correlações (positivas ou não) entre a criação e o desenvolvimento dos sistemas nacionais de educação (em seus diferentes níveis) e as necessidades econômicas e sociais do sistema ocupacional, gestou-se uma outra concepção de qualificação referendada na capacidade de cada Estado Nacional de expandir quantitativo e qualitativamente seus sistemas escolares. Surge , pois, uma nova conotação para o termo qualificação, designada por Paiva (1995) de " qualificação formal".

"Por muitas décadas a economia e o planejamento da educação trabalharam com a qualificação formal. Planejava-se a maneira de obter um número x de diplomas em determinadas áreas ou setores profissionais, de acordo com projeções de demanda. Calculava -se a taxa de retorno através de diferenciais de rendimentos (salários) em função do número de anos de escolaridade ou da posse de um diploma; media - se a relação custo-benefício social dos investimentos em educação, fosse através de considerações globais sobre o atendimento de metas econômicas nos países socialistas, fosse por meio de indicadores indiretos nos países capitalistas. Nestes , o mercado requeria força de trabalho diplomada, atestados de conclusão de curso". (3)

A partir das décadas de 60 e 70 muitos pesquisadores e técnicos de planejamento adotaram a concepção de "qualificação formal " empregando-a como um índice de desenvolvimento sócioeconômico , que abrangia tanto as taxas médias de escolarização da população , bem como a progressiva extensão do tempo médio de permanência na escola, índices estes que haviam alcançado patamares elevados nas últimas três décadas, nos países capitalistas avançados do ocidente e nos países pertencentes ao ex-bloco, liderado pela URSS. Tais índices estatísticos - taxas médias de escolarização e duração da escolaridade - foram paulatinamente sendo utilizados como parâmetros internacionais de avaliação e replanejamento das políticas educacionais dos países do terceiro mundo, por parte das Agências Internacionais de Desenvolvimento.

Ancorados na concepção de "qualificação formal", alguns autores mencionam o fenômeno da supereducação ou superqualificação, baseando-se no seguinte argumento : " o efeito da confiança popular nas virtudes da educação, das política oficiais de igualdade de oportunidades e de luta entre os grupos de 'status' através das credenciais outorgadas pelo sistema escolar, as pessoas recebem mais educação, em média, do que realmente necessária no emprego". (4)

Esta assertiva , em nossa opinião, procura dar respaldo científico às políticas neo- liberais de educação baseadas na visão de Estado Mínimo.

As concepções de qualificação elaboradas a partir dos enfoques das teorias do capital humano e do planejamento macrossocial, como vimos, estão ancoradas em enfoques macroeconômicos que privilegiam dimensões relativas ao desenvolvimento econômico, crescimento e diversificação do mercado formal de trabalho e sua relações com os sistemas de educação escolar.

Há contudo outras acepções que tem sido privilegiadas pela sociologia do trabalho, em que se tomam por base outros recortes analíticos, privilegiando os eixos da organização da produção e do trabalho.

B) AS NOÇÕES DE QUALIFICAÇÃO QUE TOMAM COMO PARÂMETROS A PRODUÇÃO E A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

b1. O modelo taylorista e sua concepção de qualificação

Esta concepção de qualificação tem como matriz o modelo job / skills definido a partir da posição a ser ocupada no processo de trabalho e previamente estabelecida (prescritas) nas normas organizacionais da empresa , de acordo com a lógica do modelo taylorista/fordista de organização do trabalho. Na ótica deste modelo, a qualificação é concebida como sendo "adstrita" ao posto de trabalho e não como um conjunto de atributos inerentes ao trabalhador.(5)

"Em termos operacionais as organizações operam com representações sistemáticas e formalizadas de tais tarefas e habilidades (representadas nos manuais de rotina de trabalho e de cargos e salários) , nesse sentido embora exista uma relação dita objetiva e normativa entre o perfil técnico requerido e os requisitos formais para obtê-los (escolaridade requerida, experiência etc..) existe uma série de decalagens entre o escrito e o realizado, entre o que está estipulado nas formulações escritas e oficiais e o discurso dos quadros técnicos (engenheiros e chefias intermediárias )." (6)

Tendo como parâmetros o posto/função estabelecido a partir da inserção e posição no mercado formal de trabalho, a qualificação é privatizada, isto é, entendida como um bem conquistado de forma privada e constituída por um conjunto de conhecimentos técnico-científicos , destrezas , habilidades, um acúmulo de conhecimentos e experiências adquiridas ao longo de uma trajetória de vida escolar e de trabalho, encaradas numa ótica processual, individualizada, personalizada, sem nenhuma conotação ou condicionamento sócio - cultural. Neste sentido a formação para o trabalho é definida como "treinamento básico, conhecimento ou formação escolar necessários para o exercício da função; esse conhecimento ou formação podem ter sido adquiridos ou por instrução formal ou por treinamento preliminar em trabalhos de menor grau, ou pela combinação desses meios". (7)

Nesse sentido o que importa , do ponto de vista da formação para o trabalho é garantir que os trabalhadores sejam preparados exclusivamente para desempenhar tarefas/funções específicas e operacionais. Esta concepção de formação profissional está alicerçada numa concepção comportamental rígida , através da qual ensino/aprendizagem das tarefas/habilidades deve-se dar numa seqüência lógica, objetiva e operacional, enfatizando os aspectos técnico-operacionais em detrimento de sua fundamentação mais teórica e abrangente.

A noção de hierarquia de postos de trabalho é estabelecida a partir de uma escala de qualificações profissionais, associados, por sua vez , a níveis também hierárquicos de escolaridade, ou melhor a um credenciamento escolar oficial que legitima a representação de que os que comandam e possuem uma posição mais elevada na hierarquia de especialização ( e, por conseguinte de mando ,e decisão) são os mais competentes estabelecendo-se uma relação mecanicista entre teoria/prática e competência, independentemente do ponto de vista a partir do qual se faça a análise , do executor, do prático, sempre incompetente, ou do decisor, teórico, sempre competente.(8)

No que concerne à construção de representações reduz-se a qualificação a um percurso de responsabilidade individual e de natureza meritocrática , privatiza-se a noção de competência, restrita a (tanto no âmbito teórico como prático) ao ofício/função que cada trabalhador desempenha no mercado de trabalho formal.

Além disso, desenvolve - se a crença político - ideológica do "poder da educação escolar "como mecanismo de acesso às posições qualificadas, mascarando os demais mecanismos sociais (inerentes a processos societais mais abrangentes ) e organizacionais (mecanismos de credenciamento estabelecidos internamente pelas empresas) que condicionam o acesso e a manutenção dos trabalhadores no mercado formal de trabalho. Em complementaridade à noção meritocrática de educação , construiu-se também a representação da neutralidade da educação, da ciência e da tecnologia. Em outras palavras , construi-se e sustenta se a representação social de que os níveis hierárquicos de qualificação, legitimam e justificam a separação entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, e que os níveis hierárquicos de escolaridade estão social e historicamente associados a esta separação.

A educação escolar hierarquizada em níveis (primária, secundária e superior) e que constitua a base para diferentes patamares de qualificação -numa graduação desde a menos qualificada até aquela altamente especializada - constitui, no âmbito dessa concepção de qualificação, muito mais um mecanismo de legitimação das diferenças entre os vários níveis hierárquicos de especialização criados a partir do mundo do trabalho, do que, na maioria dos casos, canal de acesso aos diferentes sistemas de status profissionais. Nessa concepção, portanto, o grau de escolaridade formal constitui um dos ingredientes do processo , cuja valoração vai variar de acordo com o setor econômico e da história particular de cada formação social.

Há , sem dúvida, uma valorização da educação formal no discurso , mas na realidade esta é exigida para os cargos mais altos da hierarquia associada a uma supervaloração do conhecimento técnico-científico e desvalorização/valorização do conhecimento prático. Com relação ao conhecimento prático, convém ressaltar uma outra ambigüidade no discurso dominante, nas falas valoriza - se o conhecimento teórico, elaborado, sistemático, mas no cotidiano valoriza-se o conhecimento obtido através da experiência , ou seja através da prática no trabalho.

Esta concepção de qualificação hegemônica por mais de três décadas e ancorada no modelos taylorista/fordista de organização da produção e do trabalho entra em crise com a reorganização do sistema capitalista através da adoção de sistemas de produção flexíveis e da criação de novas formas de organização do trabalho, como veremos mais adiante.

b2. A qualificação social do trabalho e do trabalhador

A questão da qualificação do trabalho/dos trabalhadores não preocupou somente os teóricos e gestores do capital, muito pelo contrário , os críticos do capitalismo e defensores do trabalho, desde os clássicos até os nossos dias, têm discutido questões relativas à qualificação e formas de organização, analisando -as, essencialmente, à luz do conceito de trabalho.

Em Marx e nos autores contemporâneos de tradição marxiana as concepções de qualificação têm sido construídas tomando-se o trabalho como eixo articulador das noções de qualificação/desqualificação.

No que diz respeito à qualificação do trabalho pode-se distinguir duas conotações interdependentes e complementares ainda que dialéticamente opostas: visões que pontuam o polo da negatividade e outras que destacam o de positividade.

As análises que destacam a negatividade do processo de organização capitalista do trabalho, quando realizado nas condições estabelecidas e regulamentadas pelo capital , ressaltam as características de um trabalho alienado , fragmentado e desqualificante.

(a) "a divisão entre o trabalho manual e trabalho intelectual, isto é , a divisão entre concepção e execução é imanente ao processo de trabalho capitalista, pois constitui um aspecto do monopólio que o capital tem sobre o conhecimento (acúmulos gerados pela ciência e tecnologia) e o poder de projetar sistemas de produção. Só por meio da posse e da reprodução desse monopólio pode o capital impor seus objetivos. Vista sob essa ótica ( o que é obviamente o que Marx tinha em mente no "Capital"), a divisão entre funções mentais e físicas do organismo humano, tomadas no sentido puramente abstrato. Todo trabalho humano envolve tanto a mente quanto o corpo. O trabalho manual envolve percepção e pensamento. Nenhum trabalho é tão completamente rotinizado que possa ser executado sem que se tenha alguma forma de organização conceptual. Da mesma forma, todo trabalho mental envolve alguma atividade corporal, a qual é, em muitos casos, um aspecto vitalmente importante desse trabalho;

(b) o controle hierárquico e a disciplina são essenciais para que o capital possa alocar tarefas, impor velocidades e intensificações, punir a má qualidade e, assim por diante pois, a final das contas, é ele que dá as regras no interior do processo de trabalho. É o capital que aloca tarefas, que especifica esquemas de pagamento e normas e que impõe penalidades para o caso de falhas. Dizer isso não significa contudo que as formas de controle hierárquico não possam ser modificadas e ou transmutadas.

(c) fragmentação/desqualificação - a desqualificação é inerente ao processo de trabalho capitalista porque o capital deve visar ter funções de trabalho que sejam rotinas calculáveis, padronizáveis, porque este trabalho deve ser executado à velocidade máxima e com o mínimo de "porosidade" e porque o capital quer força de trabalho que seja barata e facilmente substituível. É bastante difícil explicitar o que é essencial à noção de desqualificação. Existem três aspectos:

(I) Antes de mais nada, existe a substituição da relação entre o trabalhador e as ferramentas pela relação entre o trabalhador e a máquina. Em outras palavras, na substituição do artesão pelo operador de máquina. Pode ocorrer que essas duas relações sejam simplesmente incomensuráveis, de forma que falar de desqualificação neste caso pode confundir. A noção de desqualificação parece acarretar uma escala quantitativa unilinear de algum tipo, ao passo que as habilidades do artesão e do operador de máquinas podem exigir diferentes escalas. Pode ser abstrato e arbitrário discutir se existe ou não 'mais habilidade' envolvida em transformar o metal em objetos artesanais, batendo com o martelo, ou em operar certas máquinas de processamento de metal;

(II) Em segundo lugar, todas as funções que exigem certas qualificações especiais para sua operação são divididas em funções separadas. Na medida em que uma qualificação é ainda necessária, ela é distribuída entre tão poucos trabalhadores especializados quanto possível ;

(III) Em terceiro lugar, há a tendência para que as remanescentes tarefas não qualificadas ou semi-qualificadas sejam separadas umas das outras e distribuídas por diferentes postos. .Isto significa a fragmentação adicional dos postos já desqualificados. Este terceiro aspecto da desqualificação, entretanto, é apenas uma tendência." (9)

As abordagens que defendem a dimensão de positividade tomam como eixo a discussão da natureza do trabalho, enquanto atividade humana e social que envolve ao mesmo tempo reprodução e apropriação transformadora, caracterizando o trabalho como uma atividade de humanização, conotação que aliás também está presente em Marx em vários de seus escritos, notadamente nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos e na Ideologia Alemã.

Nesse sentido concebe-se o trabalho como uma forma de ação original e especificamente humana , através do qual o homem age sobre a natureza, transforma a ordem natural em ordem social, cria e desenvolve a estrutura e as funções de seu psiquismo, relaciona-se com outras pessoas, comunica-se, descobre, enfim, produz sua própria consciência e todo o conjunto de saberes que lhe possibilitarão viver em sociedade, transformar-se e transforná-la.

Retomando a discussão do trabalho enquanto atividade humana (que Heller conceitua como "labour" ) e praxis social concreta e historicamente determinada, o ato de trabalho também se constitui , ao nível epistemológico, numa relação dialética entre sujeito/objeto e que, portanto , envolve a possibilidade de uma apropriação criadora e não simplesmente de mera repetição/reprodução .Esta dimensão, aliada à possibilidades de troca e comunicação inerentes ao ato de trabalho como prática social, faz com que os trabalhadores enquanto sujeitos no e do trabalho, tenham virtualmente a possibilidade de se apropriarem crítica e construtivamente do conteúdo e do contexto de realização do próprio trabalho. .Nessa perspectiva os trabalhadores enquanto sujeitos coletivos estariam também se construindo e qualificando no e a partir do trabalho , apesar das condições alienantes e alienadoras do trabalho sob a égide e o controle do capital.

As leituras e argumentações que procuram resgatar a dimensão de positividade no trabalho seguem duas linhas de argumentação, ora recuperam as características imanentes ao trabalho, enquanto atividade social e coletiva, ora resgatam o potencial que possuem os trabalhadores organizados para imporem resistências, transgressões dos padrões instituídos e mesmo de negociarem a seu favor ( ainda que de modo descontínuo) condições, normas de trabalho, espaços e mecanismos que lhes garantam maiores direitos (incluindo o de qualificar-se) e maior autonomia. Estas duas leituras dos espaços de trabalho embora retratem aspectos diversos , partem do pressuposto de que no cotidiano, os espaços de trabalho possuem uma dinâmica social de embates, conflitos, negociação e também de formação.

De acordo com as linhas de argumentações acima das diferentes posições ou focos de análise existentes no pensamento marxiano em relação ao trabalho, poder-se-ia aventar a possibilidade que, segundo esses paradigmas teóricos a concepção de qualificação pressupõe: a) uma idéia de determinação, decorrente da própria organização social (capitalista) de trabalho e, simultaneamente, uma conotação de redirecionamento, decorrente da possibilidade de intervenção dos atores sociais envolvidos no processo ; b) a noção de qualificação adquire uma conotação primordialmente sócio- cultural e histórica e, c) envolveria a idéia da qualificação como um processo constituído a partir de um movimento dialético -que comportaria, ao mesmo tempo, elementos qualificantes e desqualificantes, conectados ao ato e/ou atividades de trabalho, não circunscrita e cristalizada em função de um conjunto prescrito de postos de trabalho/tarefas e funções.(10)

A partir desta ótica a díade qualificação/desqualificação seria um componente constitutivo do próprio trabalho humano e portanto inerente aos coletivos de trabalhadores , em contraposição à concepção determinista e unilateral de qualificação na acepção tecnicista, calcada na tese da especialização (na ótica da fragmentação de tarefas e funções ).

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Como se constatou , a noção de qualificação é polissêmica podendo ser assumida com várias acepções , assim como tomada , para efeitos de pesquisa, sob ângulos e enfoques distintos. Para alguns a qualificação é considerada na perspectiva da preparação para o mercado , envolvendo portanto um processo de formação profissional adquirido através de um percurso escolar e de uma experiência (ou carreira profissional) capaz de preparar os trabalhadores para o ingresso e manutenção no mercado formal de trabalho. Um outro uso da noção de qualificação , é entendê-la como um processo de qualificação/desqualificação inerente a organização capitalista do trabalho, sendo o resultado da relação social entre capital e trabalho e da correlação de forças entre ambos. Há ainda uma terceira visão (mais recente da sociologia do trabalho francesa) que aborda e define a qualificação a partir da investigação de situações concretas de trabalho. Os autores destes estudos designam tal qualificação de real e operacional.(11)

Nos últimos dez anos, a concepção de qualificação tecnicista (cuja matriz o modelo job/skills) e ancorada nas normas previamente estabelecidas pelas empresas está conviverndo ou sendo substituída por uma outra concepção a que verm sendo designada por modelo da competência.


Próxima Parte


Notas

1 Não incluiremos neste artigo a noção de competência na acepção dos linguístas e psicolingúistas. A este respeito ver Tanguy e Ropé , 1997.

2Harbison, Frederick H. - Mão - de Obra e Desenvolvimento Econômico: problemas e estratégia, in Pereira Luiz (org.) Desenvolvimento, Trabalho e Educação, 2a. ed., R. J. Zahar Editores, 1947, p.153.

3Paiva, Vanilda - Inovação Tecnológica e Qualificação , in Revista Educação e Sociedade, ano XVI, abril, 1995.

4 Enguita, Mariano F. - Tecnologia e Sociedade: A ideologia da racionalidade técnica, a organização do trabalho e a educação, in Trabalho, Educação e Prática Social. Porto Alegre, Artes Médicas,1991, p. 250.

5 Ver a este respeito os trabalhos de Acácia Z. Kuenzer e Nádya Araújo Castro.

6 Castro, Nadya de Araújo - Qualificação, qualidades e classificações in, Revista Educação & Sociedade, ano XIV, Agosto , 1993, p. 216.

7 Kuenzer, Acácia Z. - Pedagogia da Fábrica, São Paulo, Cortez e Autores Associados Editores, 1985, p. 114.

8 Kuenzer, Acácia Z. op. cit, p. 100.

9 Brighton Labour Process Group - O Processo de trabalho capitalista ,in Silva, Tomaz T. da(org.) - Produção, educação e conhecimento, op. cit., p. 32 / 36.

10 Ver a este respeito Machado, Lucilia R. S. - Qualificação do Trabalho e Relações Sociais, in Gestão do Trabalho e Formação do Trabalhador, B. Horizonte, MCM, 1996, pp.13-40.

11 Hirata, Helena ; Zarafian, Ph., Freyssenet , M e outros.